A MULHER CANANEIA

               Partiu Jesus daí (Genesaré) e se retirou para as regiões de Tiro e Sidônia. E eis que veio uma mulher Cananeia daquelas terras e se pôs a clamar: “Senhor, filho de Davi, tem piedade de minha filha, que está muito atormentada dum espírito maligno! Jesus, porém não respondeu palavra. Chegaram-se a ele seus discípulos e lhe pediram: “Despacha-a, porque vem gritando atrás de nós”.

Respondeu ele: “Não fui enviado senão às ovelhas que se perderam da casa de Israel”.

Aproximou-se ela e prostrou-se-lhe aos pés, dizendo: “Ajuda-me, Senhor!”

Tornou Jesus: “Não convém tirar o pão aos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos”.

“Decerto, Senhor”, revidou ela, “mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa de seus donos”.

Então disse Jesus: “Ó mulher! Grande é a tua fé; seja feito conforme o teu desejo”.

E a partir dessa hora estava de saúde sua filha (Mateus, 15, 21-28.)

Essa passagem também aparece em Marcos, 7, 24-30.

Schutel, com o seu invulgar conhecimento dos Evangelhos, esclarece que o Mestre tinha consciência de que sua missão no nosso planeta não seria em vão.

“O principal escopo de sua vinda a este mundo, como se vê bem claro nesta passagem dos Evangelhos, foi arrebanhar as “ovelhas perdidas de Israel.”

De fato, o Mestre nunca teve a pretensão de converter o mundo. Sabia mesmo que este milagre, por muito boa vontade que ele tivesse, era impossível de se realizar.

Sendo os habitantes da Terra espíritos de várias categorias e em condições de grande atraso espiritual, moral e científico, a sua Doutrina não poderia ser compreendida e aceita por eles. Só depois de uma evolução mais acentuada pela Lei da Reencarnação, como foi anunciada a Nicodemos, chegariam eles à compreensão da Lei do Amor, que é a síntese dos Ensinos Cristãos.

De modo que, como se nos depara nos Evangelhos, o mundo não podia receber a Palavra da Vida, como não a recebeu, embora o Mestre a anunciasse a todos, sem distinção de pessoas, porque as graças de Deus não fazem distinção entre judeu e gentio. Entretanto, só se distingue na recepção das graças, aqueles que as recebem e as guardam com carinho.

A luz é dada para todos, o Sol nasce para todos, as chuvas caem sobre todas as terras, mas há os que fecham os olhos para não verem a luz, há os cegos que não podem ver a luz do Sol e há roçadas e terrenos que não aproveitam as chuvas.

E o que acontecia naquele tempo e acontece também hoje.

Mas as “ovelhas desgarradas de Israel”, não há dúvida, teriam de se acolher sob a sombra protetora do seu Pastor, de quem conheciam a voz, pois Ele viera exclusivamente “em busca das ovelhas que se haviam desgarrado do seu rebanho”.

A mulher Cananéia (sirofenícia), mesmo não sendo da “casa de Israel”, era uma dessas ovelhas. Os seus gestos, modos de falar, a sua insistência na rogativa dirigida a Jesus, mostra claramente que se tratava de uma pessoa que tinha afinidade espiritual com Jesus.

“Para afirmar mais ainda a sua fé, e certamente porque aquela mulher havia cometido a grande falta do “desgarramento” do seu rebanho em anterior encarnação, Jesus propositalmente tratou-a com severidade, pois assim despertaria nela fundas intuições de haver abandonado o Mestre e se firmaria ainda mais no dever de reparar a falta: “Deixa primeiro que se fartem os filhos, porque não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos.”

Esta frase foi um golpe certeiro para que nela despertasse a falta cometida, golpe que como se vê, fê-la encher-se de verdadeira humildade: “Assim é, Senhor, mas até os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa de seus donos.”

Já não era somente a cura da sua filha que ela desejara; queria também, embora “como um cachorrinho”, comer uma migalha daquele pão da Vida que Jesus estava distribuindo tão fartamente e com tanto amor, para os deserdados da sorte.

Aberto o espírito para as coisas divinas e publicamente proclamada a fé e a crença resoluta que ela mantinha, Jesus não se fez mais rogado, e, satisfazendo-lhe o desejo, frisou bem: Por esta palavra, vai-te, faça-se contigo como queres.  Ó mulher, grande é a tua fé! E daquela hora em diante a sua filha ficou sã”.

Esta lição, para quem busca as coisas espirituais, traz-nos ainda outros ensinamentos, a respeito das curas cristãs.

Segundo nos parece, as curas se efetuam por fé, por amor e por misericórdia.

A cura efetuada para conversão do incrédulo, é  a cura pela fé; a cura feita numa pessoa de nossa amizade, é a cura feita por amor; a cura feita num estranho, num miserável e até num desafeto, ou mesmo dirigida a um pobre animal, de quem tenhamos compaixão, é a cura por misericórdia.

No caso da “Cananeia” foi a fé que agiu, porque era preciso acender com boa chama a fé em Jesus, fé que a sirofenícia deveria guardar para sempre. E a prova é que depois que essa fé se manifestou com intensidade , é que ela obteve o que desejava, e Jesus frisou: “Mulher, grande é a tua fé.”

Podemos observar, lendo sobre as curas efetuadas por Jesus, que ele usava diferentes meios, conforme o caso. A cura podia ser feita com o doente presente ou não. Jesus usava, às vezes, só a palavra, outras, imposição de mãos, saliva, lodo, etc.

 

Maria Madalena Naufal

FONTES

 

NOVO TESTAMENTO – Tradução de Huberto Rohden – Martin Claret;

O ESPÍRITO DO CRISTIANISMO – Cairbar Schutel – Casa Editora o CLARIM.

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