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Divulgamos um vídeo da palestra proferida.

“Doutrina Espírita”

Assistam.

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CARACTERES DA REVELAÇÃO ESPÍRITA

 

Vamos dar início a novos esclarecimentos de Allan Kardec sobre a Doutrina Espírita. A tradução foi feita por Dafne R. Nascimento e a supervisão é de Freitas Nobre (Edições FEESP).

  • Podemos considerar o Espiritismo como uma revelação? Nesse caso, qual é o seu caráter? Em que está fundada sua autenticidade? Por quem e de que maneira ela foi feita? A doutrina espírita é uma revelação no sentido teológico da palavra, quer dizer, é ela, sob todos os aspectos, o produto de um ensinamento oculto vindo do alto? É ela absoluta ou suscetível de modificações?  Trazendo aos homens a verdade toda pronta, a revelação  não teria como efeito impedi-los de fazer uso de suas faculdades, já que lhes pouparia o trabalho da investigação? Qual pode ser a autoridade do ensinamento dos Espíritos, se eles não são infalíveis e superiores à humanidade? Qual é a utilidade da moral que eles pregam, se essa moral é a mesma do Cristo que se conhece? Quais são as verdades novas que eles nos trazem? O homem precisa de uma revelação e não pode encontrar em si mesmo e em sua consciência tudo que lhe é necessário para se governar? Tais são as questões sobre as quais cumpre ater-se.
  • Definamos, antes, o sentido da palavra revelação.

Revelar, do latim revelare, cuja raiz é velum, véu e, no sentido figurado: descobrir, dar a conhecer uma coisa secreta ou desconhecida. Em sua acepção vulgar mais geral, diz-se de qualquer coisa ignorada que é esclarecida, de qualquer ideia nova que abre caminho para aquilo que não se sabia.

Desse ponto de vista, todas as ciências que nos esclarecem sobre os mistérios da natureza são revelações, e pode-se dizer que há para nós uma revelação incessante; a astronomia revelou-nos o mundo astral que não conhecíamos; a geologia, a formação da terra; a química, a lei das afinidades; a fisiologia, as funções do organismo, etc.; Copérnico, Galileu, Newton, Laplace, Lavoisier são reveladores.

  • O caráter de toda a revelação deve ser a verdade. Revelar um segredo é dar a conhecer um fato; se a coisa é falsa, não é um fato e, consequentemente, não há revelação. Toda revelação desmentida pelos fatos não é revelação; se é atribuída a Deus, como Deus não pode mentir nem se enganar, ela não pode emanar dele; é preciso considerá-la como o produto de uma concepção humana.
  • Qual é o papel do professor diante de seus alunos, senão o de um revelador? Ele lhes ensina o que não sabem o que não teriam nem o tempo nem a possibilidade de descobrir por si mesmos porque a ciência é a obra coletiva dos séculos e de uma multidão de homens que trouxeram, cada um, seu contingente de observações, de que se aproveitam aqueles que vêm depois deles. O ensino é pois, na verdade a revelação de certas verdades científicas ou morais, físicas ou metafísicas, feitas por homens que as conhecem e outros que as ignoram, e que de outra forma sempre as teriam ignorado.
  • Mas o professor só ensina o que aprendeu; é um revelador de segunda ordem; o homem de gênio ensina o que ele próprio encontrou: é o revelador primitivo; ele traz a luz que, pouco a pouco, se vulgariza. O que seria da humanidade sem a revelação dos homens de gênio que aparecem de tempos em tempos!

Mas quem são os homens de gênio?  Por que são homens de gênio? De onde vêm? Que será deles? Notemos que a maior parte traz consigo conhecimentos inatos, que um pouco de trabalho basta para desenvolver. Eles pertencem realmente à humanidade, visto que nascem, vivem e morrem como nós. De onde, pois, eles tiraram esses conhecimentos, que não puderam ter adquirido em sua vida? Diremos, com os materialistas, que o acaso lhes deu a matéria cerebral em maior quantidade e melhor qualidade? Nesse caso , eles não teriam maior mérito que um legume maior e mais saboroso que um outro.

Diremos, como certos materialistas, que Deus os dotou de uma alma mais favorecida que a do comum dos homens? Suposição também completamente ilógica, que mancharia Deus de parcialidade. A única solução racional deste problema está na pré-existência da alma e na pluralidade das existências. O homem de gênio é um Espírito que viveu mais tempo; que; que, por consequência,  adquiriu mais e progrediu mais que aqueles que estão menos avançados. Encarnando, ele traz o que sabe e como sabe muito mais que os outros, sem ter precisado aprender é o que chamamos de gênio. Mas o que ele sabe não deixa de ser o fruto de um trabalho anterior, e não o resultado de um privilégio. Antes de renascer, ele era pois Espírito avançado; reencarna-se seja para fazer os outros aproveitarem do que ele sabe seja para adquirir ainda mais.

Os homens progridem incontestavelmente por si próprios e pelos esforços de sua inteligência; mas entregues  à suas próprias forças, esse progresso é muito lento, se não forem ajudados por homens mais avançados, como o estudante o é pelos seus professores. Todos os povos têm seus gênios, que vieram, em diversas épocas, dar um impulso e tirá-los de sua inércia.

  • Desde que se admite magnanimidade de Deus para com suas criaturas, por que não admitiríamos que Espíritos capazes, por sua energia e superioridade de seus conhecimentos, de fazer a humanidade progredir, encarnam-se pela vontade de Deus com o objetivo de ajudar o progresso num sentido determinado; que recebem uma missão, como um embaixador recebe uma de seu soberano? Esse é o papel dos grandes gênios. Que vêm eles fazer, senão ensinar aos homens verdades que estes ignoram e que teriam ignorado ainda durante longos períodos, a fim de oferecer-lhes um degrau com a ajuda de que poderão elevar-se mais rapidamente? Esses gênios que aparecem através dos séculos como estrelas brilhantes, deixando atrás de si um longo rasto luminoso sobre a humanidade, são missionários ou, se quisermos, messias. As coisas novas que ensinam aos homens, seja na esfera física, seja na esfera filosófica, são revelações.

Se Deus faz nascer reveladores para as verdades científicas, pode, sobretudo, fazer nascer outros para as verdades morais, que são um dos elementos essenciais do progresso. Tais são os filósofos, cujas ideias atravessaram os séculos.

  • No sentido especial da fé religiosa, a revelação refere-se particularmente às coisas espirituais que o homem não pode saber por si mesmo, que não pode descobrir através dos seus sentidos, e cujo conhecimento lhe é dado por Deus ou por seus mensageiros, seja por meio da palavra direta, seja pela inspiração. Nesse caso, a revelação é sempre feita a homens privilegiados, designados pelo nome de profetas ou messias, quer dizer, enviados, missionários, com a missão de transmiti-la aos homens. Considerada sobre esse ponto de vista, a revelação implica em passividade absoluta; é aceita sem controle, sem exame, sem discussão.
  • Todas as religiões tiveram os seus reveladores e, ainda que todos estejam longe de ter conhecido a verdade, eles tinham sua razão de ser providenciais; pois eram apropriados ao tempo e ao meio onde viviam, ao caráter particular dos povos a quem falavam, e a quem eram relativamente superiores. Apesar dos erros de suas doutrinas, não trataram de remover delas os espíritos, semeando assim grandes germes de progresso que, mais tarde, deviam desabrochar, ou desabrocharão um dia ao sol do Cristianismo, É pois injustamente que lhes atiramos o anátema em nome da ortodoxia, pois virá o dia em que todas essas crenças, tão diversas na forma, mas que repousam na verdade em um mesmo princípio fundamental: Deus e a imortalidade da alma, fundir-se-ão numa grande e vasta unidade, quando a razão tiver triunfado sobre os preconceitos.

Infelizmente, as religiões foram, sempre, instrumentos de dominação; o papel de profeta tentou as ambições secundárias, e viu-se surgir uma multidão de pretensos reveladores ou messias que, graças ao prestígio desse nome, exploraram a credulidade em proveito de seu orgulho, sua cupidez ou indolência, achando mais cômodo viver às expensas dos iludidos por eles. A religião cristã não andou resguardada desses parasitas,. A esse respeito chamamos a atenção para o capítulo XXI do Evangelho Segundo o Espiritismo: “Haverá falsos Cristos e falsos profetas”.

  • Há revelações diretas de Deus aos homens? É uma questão que não ousaríamos resolver, nem afirmativa e nem negativamente, de modo absoluto. A coisa não é radicalmente impossível, mas nada nos dá a prova certa. O que não é passível de que os Espíritos mais próximos de Deus pela perfeição penetram-se do seu pensamento e podem transmiti-los. Quanto aos reveladores encarnados, segundo a ordem hierárquica a quem pertencem e o grau do seu saber pessoal, podem tirar suas instruções de seus próprios conhecimentos ou recebê-las de Espíritos mais elevados, e mesmo de mensageiros diretos de Deus. Estes, falando em nome de Deus, puderam por vezes ser tomados pelo próprio Deus.

Esses tipos de comunicação não tem nada de estranho para quem quer que conheça os fenômenos  espíritas e a maneira como se estabelecem as relações entre os encarnados e os desencarnados. As instruções podem ser transmitidas por diversos meios: pela inspiração pura e simples, pela audição da palavra, pela visão os Espíritos instrutores nas visões e aparições, seja em sonho, seja no estado de vigília, assim como aparecem em numerosos exemplos na Bíblia, no Evangelho e nos livros sagrados de todos os povos. Assim é rigorosamente exato dizer que a maior parte dos reveladores são médiuns inspirados, auditivos ou videntes; de que não se segue que todos os médiuns sejam reveladores, e ainda menos os intermediários diretos da Divindade ou de seus mensageiros.

  • Só os puros Espíritos recebem a palavra de Deus com a missão de transmiti-la, mas se sabe agora que os Espíritos estão longe de ser todos perfeitos, e há os que de si dão falsas aparências; foi o que Fez São João declarar: “Não acreditem em qualquer Espírito, mas vejam antes se os Espíritos são de Deus”.

Pode, pois, haver revelações sérias e verdadeiras, como há outras apócrifas e mentirosas. O caráter essencial da revelação divina é o da eterna verdade. Toda revelação manchada de erro ou sujeita a mudança não pode emanar de Deus. É assim que a lei do Decálogo tem todos os caracteres de sua origem, enquanto as outras leis mosaicas, essencialmente transitórias, frequentemente em contradição com a lei do Sinai, são a obra pessoal e política do legislador hebreu. Os costumes do povo abrandando-se,  essas leis por si só caíram em desuso, ao passo que o Decálogo permaneceu de pé como o farol da humanidade,. O Cristo fez dele a base de seu edifício ao passo que aboliu as outras leis. Se tivessem sido obras de Deus, ele as resguardaria de tocar nelas. O Cristo e Moisés são os dois grandes reveladores que mudaram a face do mundo, e esta é a prova de sua missão divina, Uma obra puramente humana não teria tal poder.

11 – Uma importante revelação cumpriu-se na época atual; é ela que  nos mostra a possibilidade de comunicação com os seres do mundo espiritual. Esse conhecimento não é novo, sem dúvida; mas ficou até nossos dias de certa forma no estado de letra morta, quer dizer, sem proveito para a humanidade. A ignorância das leis que regem essas relações tinha-a sufocado sob a superstição: o homem era incapaz de tirar dela qualquer dedução salutar; estava reservado à nossa época desembaraçá-la de seus acessórios ridículos, de compreender seu alcance, e de tirar dela a luz que devia aclarar o caminho do futuro.

12 – O Espiritismo, tendo-nos dado a conhecer o mundo invisível que nos rodeia e no meio do qual vivíamos sem suspeitar, as leis que o regem, suas relações com o mundo visível, a natureza e o estado dos seres que o habitam e, por consequência, o destino do homem depois da morte, é uma verdadeira revelação, na acepção científica da palavra.

13 – Pela sua natureza, a revelação espírita tem um duplo caráter: ela provém simultaneamente da revelação divina e da revelação científica. Provém da primeira, no que o seu advento e providencial, e não o resultado da iniciativa e de um intento premeditado do homem; que os pontos fundamentais da doutrina são o objeto do ensino dado pelos Espíritos encarregados por Deus de esclarecer os homens sobre coisas que eles ignoravam, que não podiam aprender por si próprios, e que cumpre que eles conheçam, hoje que estão maduros para compreendê-las. Provém da segunda, pelo fato de que esse ensino não é privilégio de nenhum indivíduo, mas é dado a todos pela mesma via; que os que o transmitem e o que os recebem não são absolutamente seres passivos, dispensados do trabalho de observação e investigação; que não abnegam de seu juízo e de seu livre arbítrio; que o controle não lhes é proibido mas, pelo contrário, recomendado; enfim que a doutrina não foi ditada globalmente nem imposta à crença cega; que ela é deduzida, pelo trabalho do homem, da observação dos fatos que os Espíritos esclarecem, e das instruções que eles lhes dão, instruções que ele estuda, comenta, compara, e das quais tira, ele próprio, as consequências e aplicações. Em resumo, o que caracteriza a revelação espírita é que sua fonte é divina, que a iniciativa pertence aos Espíritos, e que a elaboração é o resultado do trabalho do homem.

14 – Como meio de elaboração, o Espiritismo procede exatamente do mesmo modo que as ciências positivas, quer dizer, ele aplica o método experimental. Apresentam-se fatos de uma natureza nova que não se podem explicar pelas leis conhecidas; Ele as observa, compara-as, analisa-as e, remontando dos efeitos às causas, ele chega à lei que as rege; depois ele deduz suas consequências  e procura suas aplicações úteis. Não estabelece nenhuma teoria  preconcebida; assim, não colocou como hipóteses nem a existência e a intervenção dos Espíritos, nem o períspirito, nem a reencarnação, nem nenhum dos princípios da doutrina; ele concluiu pela existência dos Espíritos quando essa existência sobressaiu com evidência da observação dos fatos. É, pois, rigorosamente exato dizer que o Espiritismo é uma ciência de observação, e não o produto da imaginação. As ciências só fizeram um sério progresso desde que seu estudo passou a basear-se no método experimental; mas, até esse dia, acreditou-se que esse método só era aplicável à matéria, quando ele o é também às coisas metafísicas.

15 – Citemos um exemplo. Ocorre, no mundo dos Espíritos, um fato muito singular de que, seguramente, ninguém suspeitaria – é o dos Espíritos que não acreditam estarem mortos. Pois bem! Os Espíritos superiores, que o conhecem perfeitamente, não vieram dizer por antecipação: “Há Espíritos que acreditam ainda viver a vida terrestre; que conservaram seus gostos, seus hábitos e instintos”; mas provocaram a manifestação de Espíritos dessa categoria para nos fazer observá-los. Tendo, então, visto Espíritos incertos de seu estado, ou afirmando que eram ainda deste mundo, e acreditando estar cuidando de suas ocupações ordinárias, do exemplo inferiu-se a regra. A multiplicidade de fatos análogos provou que não     se tratava de uma exceção, mas de uma das fases da vida espírita: ela permitiu que se estudassem todas as variedades e as causas dessa singular ilusão; que essa situação é sobretudo própria dos Espíritos pouco avançados moralmente, e que é particular de certos gêneros de morte: que é apenas temporária, mas pode durar dias, meses e anos. Assim é que a teoria nasceu da observação. Ocorre o mesmo com todos os outros princípios da doutrina.

16 – Assim como a ciência propriamente dita tem por objeto o estudo das leis do princípio material, o objeto especial do Espiritismo é o conhecimento das leis do princípio espiritual; ora, como este último princípio é uma das forças da natureza, tanto que reage incessantemente sobre o princípio material e reciprocamente, resulta que o conhecimento de um não pode ser completo sem o conhecimento do outro. O Espiritismo e a ciência completam-se um pelo outro: a ciência sem o Espiritismo acha-se na impotência de explicar certos fenômenos apenas pelas leis da matéria; ao Espiritismo sem a ciência faltaria apoio e controle. O estudo das leis da matéria devia preceder o da espiritualidade, porque é a matéria que atinge primeiro os sentidos. O Espiritismo vindo antes das descobertas científicas teria sido uma obra abortada, como tudo que vem antes de seu tempo.

17 – Todas as ciências encadeiam-se e sucedem-se em uma ordem racional; nascem uma das outras na medida em que encontram um ponto de apoio nas ideias e conhecimentos anteriores. A astronomia, uma das primeiras que foram cultivadas, permaneceu nos verdores da infância até o momento em que a física veio revelar a lei das forças dos agentes naturais; a química, impotente sem a física, devia sucedê-la de perto, para depois caminharem as duas harmonicamente, apoiando-se uma na outra. A anatomia, a fisiologia, a zoologia, a botânica, a mineralogia só se tornaram ciências sérias com a ajuda das luzes trazidas pela física e pela química. À  geologia, nascida ontem, sem a astronomia, a física, a química e todas as outras, teriam faltado seus verdadeiros elementos de vitalidade; ela só podia vir depois.

18 – A ciência moderna fez justiça aos quatro elementos primitivos dos antigos e, de observação em observação, chegou à concepção de um único elemento gerador de todas as transformações da matéria; mas a matéria, por si mesma, é inerte; não tem vida, nem pensamento, nem sentimento; falta-lhe a união com o princípio espiritual. O Espiritismo nem descobriu nem inventou esse princípio, mas foi o primeiro que o demonstrou com provas irrecusáveis; estudou-o, analisou-o e tornou sua ação evidente.

Ao elemento material ele veio acrescentar o elemento espiritual, eis os dois princípios, as duas forças vivas da natureza. Pela união indissolúvel desses dois elementos, explica-se sem dificuldades o grande número de fatos até então inexplicáveis.

O Espiritismo, tendo como objeto o estudo de um dos dois elementos constitutivos do universo, estende-se forçosamente à maior parte das ciências; só podia vir após a elaboração delas, e nasceu, por força das coisas, da impossibilidade de tudo explicar através unicamente das leis da matéria.

19 – Acusa-se o Espiritismo de parentesco com a magia e a feitiçaria, mas se esquece de que a astronomia teve por primogênita a astrologia judiciária, que não está tão distante de nós; que a química é filha da alquimia, da qual nenhum homem sensato ousaria ocupar-se hoje. Ninguém nega, entretanto, que houve na astrologia e na alquimia o germe das verdades de onde saíram as ciências atuais. Apesar de suas fórmulas ridículas, a alquimia abriu caminho para os corpos simples e a lei das afinidades, a astrologia apoiava-se na posição e no movimento dos astros que estudara; mas na ignorância das verdadeiras leis que regem o mecanismo do universo, os astros eram, para o vulgo, seres misteriosos aos quais a superstição atribuía uma influência moral e um sentido revelador. Quando Galileu, Newton, Kepler deram a conhecer essas leis, o telescópio desvendou o véu e mergulhou nas profundezas do espaço um olhar que certas pessoas consideram indiscretos, os planetas surgiram como simples mundos semelhantes ao nosso, e todo o engenho do maravilhoso desabou.

Deu-se o mesmo com o Espiritismo em relação à magia e a feitiçaria; estas  apoiavam-se também na manifestação dos Espíritos, como a astrologia no movimento dos astros; mas na ignorância das leis que regem o mundo espiritual, elas misturam, a essas afinidades, práticas e crenças ridículas, a que o Espiritismo moderno, fruto da experiência e da observação, fez justiça. Seguramente, a distância que separa o Espiritismo da magia e da feitiçaria é maior que a que existe entre a astrologia, a química e a alquimia; querer confundi-las é provar que não as conhecemos.

20 – Só o fato da possibilidade de comunicar com os seres do mundo espiritual tem consequências  incalculáveis da maior gravidade; é todo um mundo novo que se revela a nós e da maior importância, pois atinge todos os homens sem exceção. Esse conhecimento não pode deixar de trazer, generalizando-se, uma modificação nos costumes, no caráter, e nas crenças que têm tão grande influência nas   relações sociais. É toda uma revolução que se opera nas ideias, revolução maior, mais poderosa, tanto que não está circunscrita a um povo, a uma casta, mas atinge simultaneamente, pelo coração, todas as classes, todas as nacionalidades, todos os cultos.

É, pois, com razão que o Espiritismo é considerado como a terceira das grandes revelações. Vejamos em que essas revelações diferem, e por qual laço unem-se uma à outra.

21 – MOISÉS, como profeta, revelou aos homens o conhecimento de um Deus único, soberano Mestre e Criador de todas coisas; ele promulgou a lei do Sinai e assentou os fundamentos da verdadeira fé; como homem, foi o legislador do povo pelo qual essa fé primitiva, depurando-se, devia um dia espalhar-se por toda a terra.

22 – O CRISTO, tomando da antiga lei o que é eterno e divino, e rejeitando o que era tão-somente transitório, puramente disciplinar e de concepção humana, acrescenta a revelação da vida futura, de que Moisés não havia falado, a das penas e das recompensas que esperam o homem depois da morte.

23 – A parte mais importante da revelação do Cristo, no sentido de que ela é a parte primeira, a pedra angular de toda a sua doutrina, é o ponto de vista completamente novo sob o qual ele considera a Divindade. Não se trata mais do Deus terrível, ciumento, vingativo de Moisés, do Deus cruel e impiedoso que rega a terra com sangue humano, que ordena o massacre e o extermínio dos povos, sem poupar as mulheres, as crianças e os anciãos, que castiga os que poupam as vítimas; não se trata mais do Deus injusto que pune todo um povo pela falta de seu chefe, que se vinga do culpado na pessoa do inocente, que atinge os filhos por culpa do pai; mas de um Deus clemente, soberanamente justo e bom, pleno de mansuetude e de misericórdia, que perdoa o pecador arrependido e devolve a cada um de acordo com suas obras; não se trata mais do Deus de um único povo privilegiado, o Deus das armadas presidindo aos combates para manter sua própria causa contra o Deus dos outros povos, mas do Pai comum do gênero humano, que estende sua proteção sobre todos os seus filhos e os chama para si; não se trata mais do Deus que recompensa e pune só através dos bens da terra, que faz com que a glória e a felicidade consistam na servidão dos povos rivais e na multiplicidade da progenitura, mas que diz aos homens: “Sua verdadeira pátria não é deste mundo, mas no reino celeste; lá, os humildes de coração serão exaltados e os orgulhosos rebaixados”. Não se trata mais do Deus que faz    da vingança uma virtude e ordena que se justice olho por olho, dente por dente; mas do Deus de misericórdia que diz: “Perdoai as ofensas, se quiserdes ser perdoados; fazei o bem pelo mal; não façais a outrem o que não gostaríeis que vos fizessem”. Não se trata mais do Deus mesquinho e meticuloso que impõe, sob as penas mais rigorosas, a maneira como quer ser adorado, que se ofende com a inobservância de uma fórmula, mas do Deus grande que vê o pensamento e não se gloria com a forma. Não se trata mais, enfim, do Deus que quer ser temido, mas do Deus que quer ser amado.

24 – Sendo Deus o eixo de todas as crenças religiosas, o objetivo de todos os cultos, o caráter de todas as religiões está na conformidade de ideia que elas têm de Deus. As religiões que fazem dele um Deus vingativo e cruel crêem honrá-lo por atos de crueldade, pelas fogueiras e torturas; as que fazem dele um Deus parcial e ciumento são intolerantes; são mais ou menos meticulosas na forma segundo a qual o crêem mais ou menos manchado das fraquezas e mesquinharias humanas.

25 – Toda a doutrina do Cristo está fundada no caráter que ele atribui à divindade. Com um Deus imparcial, soberanamente justo, bom e misericordioso, ele pôde fazer do amor de Deus e da caridade para com o próximo a condição expressa da salvação, e dizer: Ama a Deus acima de tudo, e ao próximo como a ti mesmo; esta é toda a lei e os profetas, não há mais. Nessa única crença, ele pôde assentar o princípio da igualdade dos homens diante de Deus, e da fraternidade universal. Mas era possível amar aquele Deus de Moisés? Não; só se podia temê-lo.

Essa revelação dos verdadeiros atributos da Divindade, acrescida à da imortalidade da alma e da vida futura, modificava profundamente as relações mútuas dos homens, impunha-lhes novas obrigações, fazia-os encarar a vida presente sob um outro prisma; ela devia, por isso mesmo, reagir contra os costumes e as relações sociais. É, incontestavelmente, por suas consequências, o ponto capital da revelação do Cristo, cuja importância não entendemos o bastante; é lamentável dizer, é também o ponto do qual mais nos afastamos, a que menos fizemos justiça na interpretação de seus ensinamentos.

26 – No entanto o Cristo acrescenta: “Muitas coisas que lhes digo, não podem ainda compreender, e teria muito mais a lhes dizer, que não compreenderiam; é porque lhes falo em parábolas; porém mais tarde, eu lhes enviarei o Consolador, o Espírito da Verdade, que estabelecerá e explicará todas as coisas” (João, cap. XIV, XVI; Mat., cap. XVII).

Se o Cristo não disse tudo que teria podido dizer, é que acreditou dever deixar certas verdades na sombra, até que os homens estivessem em estado de compreendê-las. Pela sua confissão, seu ensinamento era, pois, incompleto, já que anuncia a vinda daquele que devia completá-lo; ele previa, pois, que entenderiam mal suas palavras, que se desviariam de seu ensinamento; em resumo, que desfariam o que ele fez, já que tudo deve ser restabelecido; ora, não se restabelece senão o que foi desfeito.

27 – Por que ele chama o novo Messias de Consolador?  Este nome significativo e sem ambiguidade é toda uma revelação. Ele previa, pois, que os homens precisariam de consolação, o que implica na insuficiência da que encontrariam na crença que iam abraçar. Jamais, talvez, o Cristo foi mais claro e mais explícito que nessas últimas palavras, a que pouca gente deu atenção, talvez porque se evitou torná-las notórias e aprofundar seu sentido profético.

28 – Se o Cristo não pôde desenvolver seu ensinamento de maneira completa, é porque faltava aos homens conhecimentos que estes só podiam adquirir com o tempo, e sem os quais eles não podiam compreendê-lo; há coisas que teriam parecido um contra-senso dentro do saber de então. Completar seu ensinamento deve pois entender-se no sentido de explicar e de desenvolver, bem mais que no de acrescentar verdades novas, pois tudo se acha ali em germe; só que faltava a chave para penetrar o sentido de suas palavras.

29 – Mas quem ousa permitir-se interpretar as Escrituras sagradas? Quem tem esse direito? Quem possui as luzes necessárias, senão os teólogos?

Quem ousa? A ciência primeiro, que não pede permissão a ninguém para dar a conhecer as leis da natureza, e salta de pés juntos sobre os erros e preconceitos.

_ Quem tem esse direito? Neste século de emancipação intelectual e de liberdade da consciência, o direito de exame pertence a todo o mundo, e as Escrituras não são mais a arca da Aliança, em que ninguém ousava tocar o dedo sem correr o risco de ser fulminado. Quanto às luzes especiais necessárias, sem contestar as dos teólogos, e alguns esclarecidos da Idade Média e, em particular, os padres da Igreja, eles no entanto não o eram ainda o bastante para não condenar, como heresia, o movimento da terra e a crença nos antípodas; e, sem precisar ir tão longe, os dos nossos dias não atiraram o anátema aos períodos da formação da terra?

Os homens não puderam explicar as Escrituras, senão com o auxílio do que sabiam, noções falsas ou incompletas que tinham sobre as leis da natureza, mais tarde reveladas pela ciência: eis porque os próprios teólogos puderam, de muito boa fé, enganar-se sobre o sentido de certas  palavras e certos fatos do Evangelho. Querendo a qualquer preço encontrar nele a confirmação de um pensamento preconcebido, giravam sempre no mesmo círculo, sem abandonar seu ponto de vista, de tal modo que só viam nele o que queriam ver. Por mais sábios teólogos que fossem, não podiam compreender as causas dependentes de leis que não conheciam.

Mas quem será juiz das interpretações diversas e frequentemente contraditórias, dadas fora da teologia?  – O futuro, a lógica e o bom-senso. Os homens, cada vez mais esclarecidos à medida em que novos fatos e novas leis vieram revelar-se, saberão integrar os sistemas utópicos e da realidade; ora, a ciência revela certas leis; o Espiritismo revela outras; umas e outras são indispensáveis à compreensão dos textos sagrados de todas as religiões, desde Confúcio e o Buda até o Cristianismo. Quanto à teologia, ela não poderá, de modo judicioso, alegar a desculpa das contradições da ciência, quando nem sempre ela está de acordo consigo mesma.

30 – O ESPIRITISMO, partindo das próprias palavras do Cristo, como o Cristo partiu das de Moisés, é uma consequência direta da sua doutrina.

`A ideia vaga da vida futura, ele acrescenta a revelação da existência do mundo invisível que nos rodeia e povoa o espaço, e assim exprime a crença de modo preciso; dá-lhe um corpo, uma consistência, uma realidade no pensamento.

Ele define os laços que unem a alma e o corpo, e ergue o véu que ocultava aos homens os mistérios do nascimento e da morte.

Pelo Espiritismo, o homem sabe de onde vem, para onde vai, porque está na terra, porque sofre aqui temporariamente, e vê, em toda a parte, a justiça de Deus.

Ele sabe que a alma progride sem cessar através de uma série de existências sucessivas, até atingir o grau de perfeição que pode aproximá-la de Deus.

Ele sabe que todas as almas, tendo um mesmo ponto de partida, são criadas iguais, com uma mesma aptidão para progredir, em virtude de seu livre arbítrio; que todas têm a mesma essência e que só há, entre elas, a diferença do progresso realizado; que todas têm o mesmo destino e atingirão o mesmo objetivo, menos ou mais rapidamente, de acordo com seu trabalho e boa vontade.

Ele sabe que não há  criaturas deserdadas, nem umas mais favorecidas que outras; que Deus não criou nenhuma que seja privilegiada e dispensada do trabalho imposto a outras para progredir; que não há seres perpetuamente votados ao mal e ao sofrimento; que os designados como demônios são Espíritos, ainda atrasados e imperfeitos, que fazem o mal no estado de Espíritos, como o faziam no estado de homens, mas que avançarão e se aperfeiçoarão; que os anjos ou puros Espíritos não são seres à parte na criação, mas Espíritos que atingiram o objetivo, depois de ter seguido a fieira do progresso; que, assim, não há criações múltiplas, nem diferentes categorias entre os seres inteligentes, mas que toda a criação resulta da grande lei de unidade que rege o universo, e que todos os seres gravitam para um objetivo comum, que é a perfeição, sem que uns sejam favorecidos em detrimento dos outros, sendo todos filhos de suas obras.

31 – Pelas relações que o homem pode agora estabelecer com aqueles que deixaram a terra, ele tem não só a prova material da existência e da individualidade da alma, mas compreende a solidariedade que une os vivos e os mortos deste mundo, e os deste mundo com os de outros mundos. Ele conhece a situação deles no mundo dos Espíritos; segue-os por suas migrações; é testemunha de suas alegrias e sofrimentos; sabe por que eles são felizes ou infelizes, e a sorte que os espera, a ele próprio, segundo o bem ou o mal que pratica. Essas relações o iniciam na vida futura, que ele pode observar em todas as suas fases, em todas as suas peripécias; o futuro não é mais uma vaga esperança; é um fato positivo, uma certeza matemática.

Então a morte não tem mais nada de assustador, pois é para ele a libertação, a porta da verdadeira vida.

32 – Pelo estudo da situação dos Espíritos, o homem sabe que a felicidade e a infelicidade na vida espiritual são inerentes ao grau de perfeição e de imperfeição; que cada um sofre as consequências diretas e naturais de seus erros – ou seja, que ele é punido pela falha cometida; que essas consequências duram tanto quanto a causa que as produziu; que, assim, o culpado sofreria eternamente no mal, mas que o sofrimento cessa com o arrependimento e a reparação; ora, como depende de cada um aperfeiçoar-se, cada um pode, em virtude de seu livre arbítrio, prolongar ou abreviar seus sofrimentos, assim como o doente sofre com seus excessos até que resolva pôr fim a eles.

33 – Se a razão repele, como incompatível com a bondade de Deus, a ideia das penas irremissíveis, perpétuas e absolutas, muitas vezes infligidas por um único erro; dos suplícios do inferno, que o arrependimento mais ardente e mais sincero não pode abrandar; ela inclina-se diante dessa justiça distributiva e imparcial, que leva tudo em consideração, nunca fecha a porta do retorno e estende sem cessar a mão ao náufrago, ao invés de empurrá-lo para o abismo.

34 – A pluralidade das existências, cujo princípio o Cristo estabeleceu no Evangelho, mas sem defini-lo mais que a muitos outros, é uma das leis mais importantes reveladas pelo Espiritismo, no sentido em que ele demonstra sua realidade e sua necessidade para o progresso. Por esta lei, o homem explica a si mesmo todas as anomalias aparentes que apresenta a vida humana: as diferenças de posição social; as mortes prematuras, que, sem a reencarnação, tornariam inúteis para a alma as vidas abreviadas; a desigualdade das aptidões intelectuais e morais, pela antiguidade do Espírito que aprendeu e progrediu menos ou mais e que traz, ao renascer, os conhecimentos adquiridos em suas existências anteriores.

35 – Com a doutrina da criação da alma em cada nascimento, cai-se no sistema das criações privilegiadas; os homens são estranhos uns aos outros uns aos outros, nada os une, os laços familiares são puramente carnais; eles não são solidários a um passado onde não existiam; com a do nada depois da morte, qualquer relação cessa com a vida; eles não são absolutamente solidários ao futuro. Pela reencarnação, são solidários ao passado e ao futuro; suas relações se perpetuam no mundo espiritual e no mundo corporal, a fraternidade baseia-se nas próprias leis da natureza; o bem tem um propósito; o mal, suas consequências inevitáveis.

36 – Com a reencarnação, caem os preconceitos de raça e de casta, já que o mesmo Espírito pode renascer rico ou pobre, senhor absoluto ou proletário, patrão ou subordinado, livre ou escravo, homem ou mulher. De todos os argumentos invocados contra a injustiça da escravidão, contra a sujeição da mulher à lei do mais forte, não há nenhum que se notabilize em lógica, a não ser o fato material da reencarnação. Se, pois, a reencarnação funda sobre uma lei da natureza o princípio da fraternidade universal, ela fundamenta sobre a mesma lei o princípio da igualdade dos direitos sociais e, consequentemente, o da liberdade.

37 – Tire do homem o espírito livre, independente, sobrevivente à matéria, e fará dele uma máquina organizada, sem objetivo, sem responsabilidade, sem outro freio além da lei civil, e bom para ser explorado como um animal inteligente. Sem esperar nada depois da morte, nada o prende para aumentar os prazeres do presente; se sofre, só tem a perspectiva do desespero e do nada como refúgio. Com a certeza do mundo futuro, de reencontrar aqueles que amou, o temor de rever aqueles a quem ofendeu, todas as suas ideias mudam. O Espiritismo, apenas tirando o homem da dúvida  a respeito da vida futura, teria feito mais por seu aperfeiçoamento moral que todas as leis disciplinares que o refreiam às vezes, mas não o mudam.

38 – Sem a pré-existência da alma, a doutrina do pecado original não é tão-somente inconciliável com a justiça de Deus, que tornaria todos os homens responsáveis pelo erro de um só – ela seria um contra-senso, ainda menos justificável pelo fato de que, segundo essa doutrina, a alma não existia na época a que se pretende  remontar sua responsabilidade. Com a pré-existência, o homem traz, renascendo, o germe de suas imperfeições, dos defeitos de que não se corrigiu e que se traduzem por seus instintos inatos, suas propensões a tal ou qual vício. Este é o seu verdadeiro pecado original, do qual ele sofre naturalmente as consequências, mas com a diferença capital que ele carrega o peso de seus próprios erros e não dos erros de um outro; e esta outra diferença, simultaneamente consoladora, encorajadora e soberanamente equitativa, que cada existência lhe oferece os meios de se redimir pela reparação, e de progredir, seja despojando-se de alguma imperfeição, seja adquirindo novos conhecimentos, e assim até que, estando suficientemente purificado, não precise mais da vida corporal, e possa viver exclusivamente da vida espiritual, eterna e bem-aventurada.

Pelo mesmo motivo, aquele que progrediu moralmente traz, ao renascer, qualidades inatas, como aquele que progrediu intelectualmente traz ideias inatas; ele identifica-se com o bem: pratica-o sem esforços, sem cálculo e, por assim dizer, sem pensar nele. Aquele que é obrigado a combater suas más tendências ainda está na luta: o primeiro já venceu, o segundo está vencendo. Há, pois, virtude original, como há saber original e pecado, ou melhor, vício original.

39 – O Espiritismo experimental estudou as propriedades dos fluidos espirituais e sua ação sobre a matéria. Demonstrou a  existência do perispírito, pressentida  desde a antiguidade, e designada por São Paulo como Corpo Espiritual, quer dizer, corpo fluídico da alma depois da destruição do corpo tangível. Sabe-se hoje que esse envoltório é inseparável da alma; que é um dos elementos constitutivos do ser humano; que é veículo de transmissão do pensamento e que, durante a vida do corpo, serve de liame entre o Espírito e a matéria. O perispírito desempenha um papel tão importante no organismo e num conjunto de emoções, que se liga tanto à filosofia quanto à psicologia.

40 – O estudo das propriedades do perispírito, dos fluidos espirituais e dos atributos fisiológicos da alma abre novos horizontes à ciência, e dá a chave de uma multiplicidade de fenômenos incompreendidos até então por falta de conhecimento da lei que os rege; fenômenos negados pelo materialismo, porque se prendem à espiritualidade, qualificados por outros como milagres ou sortilégios, de acordo com suas crenças. Tais são, entre outros, os fenômenos da dupla visão, da visão à distância, do sonambulismo natural e artificial, dos efeitos psíquicos da catalepsia e da letargia, da presciência, dos pressentimentos, das aparições, das transfigurações, da transmissão de pensamento, do encantamento, das curas instantâneas, das obsessões e possessões, etc. Demonstrando que esses fenômenos repousam em leis tão naturais quanto os fenômenos elétricos, e as condições normais nas quais eles podem se reproduzir, o Espiritismo destrói o império do maravilhoso e do sobrenatural e, consequentemente, a fonte da maior parte das superstições. Embora faça com que se acredite na possibilidade de certas coisas olhadas por alguns como quiméricas, impede que se creia em muitas outras, cuja impossibilidade e irracionalidade demonstra.

41 – O Espiritismo, bem longe de negar ou destruir o Evangelho vem, pelo contrário, confirmar, explicar e desenvolver, pelas novas leis da natureza que ele revela, tudo que disse e fez o Cristo;  ele traz luz para os pontos obscuros de seu ensinamento, de tal modo que aqueles para quem certas partes do Evangelho eram ininteligíveis, ou pareciam inadmissíveis, as compreendem sem custo através do Espiritismo e as admitem; veem melhor seu alcance e podem integrar a realidade e a alegoria; o Cristo parece-lhes maior: não é mais um filósofo, é um messias divino.

42 – Se considerarmos, além disso, o poder moralizador do Espiritismo pelo objetivo que ele dá a todas as ações da vida, pelas consequências do bem e do mal que ele mostra claramente; a força moral, a coragem, o consolo que ele dá nas aflições por uma inalterável confiança no futuro, pela ideia de que se vai estar próximo dos seres que se amou, a segurança de revê-los, a possibilidade de conversar com eles, enfim, pela certeza de que tudo que se faz, tudo que se adquire em inteligência, em ciência, em moralidade, até a última hora da vida, nada é perdido, que tudo tem proveito para o adiantamento, reconhece-se que o Espiritismo realiza todas as promessas do Cristo com respeito ao Consolador anunciado. Ora, como é o Espírito da Verdade que preside o grande movimento da regeneração, a promessa de sua vinda acha-se até mesmo realizada pois, com efeito, é ela o verdadeiro Consolador.

43 – Se, a esses resultados, acrescentarmos a rapidez inaudita da propagação do Espiritismo, apesar de tudo que se fez para demoli-lo, temos de convir que sua vinda foi providencial, visto que ele triunfa sobre todas as forças e todas as más vontades humanas. A facilidade com a qual é aceito por tão grande número, sem coação, sem outros meios além    da força da ideia, prova que ele responde a uma necessidade, a de acreditar em alguma coisa, depois do vazio cavado pela incredulidade e que, consequentemente, veio em seu tempo.

44 – Os aflitos são numerosos; não causa, pois, surpresa que tanta gente acolha uma doutrina que consola de preferência às doutrinam que desesperam, pois é aos deserdados, mais que aos felizes deste mundo, que se destina o Espiritismo. O doente vê a chegada do médico com mais alegria que o sadio; ora, os aflitos, são doentes, e o Consolador é o médico.

Vocês que combatem o Espiritismo, se querem que o abandonemos para os seguir, deem então mais e melhor que ele; curem mais seguramente as enfermidades da alma. Deem mais consolo, mais satisfação ao coração, esperanças mais legítimas, certeza maiores; façam do futuro um quadro mais racional, mais sedutor; mas não pensem vocês em suprimi-lo, com a perspectiva do nada; vocês com a alternativa das chamas do inferno ou da beata e inútil contemplação perpétua.

45 – A primeira revelação era personificada em Moisés, a segunda no Cristo, a terceira não o é em nenhum indivíduo. As duas primeiras são individuais, a terceira é coletiva; esta é uma característica essencial, de grande importância. É coletiva no sentido em que não foi feita, por privilégio, a ninguém; que ninguém, por consequência, pode dizer-se o profeta exclusivo dela. Foi feita simultaneamente por toda a terra, a milhões de pessoas, de todas as idades e de todas as condições, desde o mais baixo ao mais alto da escala, de acordo com esta predição feita pelo autor dos Atos dos Apóstolos: “Nos últimos tempos – diz o Senhor – eu expandirei meu espírito sobre toda carne; seus filhos e suas filhas profetizarão; seus jovens terão visões e seus velhos terão sonhos” (Atos, cap. II, v. 17,18). Ela não saiu de nenhum culto especial, a fim de servir um dia a todos como ponto de união.

46 – Sendo as duas primeiras revelações o produto de um ensinamento pessoal, foram forçosamente localizadas, quer dizer, ocorreram num único ponto, em torno do qual a ideia  se expandiu progressivamente; mas foram necessários muitos séculos para que atingissem as extremidades do mundo, sem chegar a invadi-lo todo. A terceira tem isso de particular, que não sendo personificada em um indivíduo, ocorreu simultaneamente em milhares de pontos diferentes, de modo que todos se tornaram centros ou focos de irradiação. Multiplicam-se esses centros, seus raios juntam-se pouco a pouco. Como círculos formados por um grande número de pedras atiradas na água; de tal modo que, a um tempo dado, acabarão por cobrir toda a superfície do globo.

Essa é uma das causas da rápida propagação da doutrina. Se ela tivesse surgido num único ponto, se tivesse sido a obra exclusiva de um homem, teria constituído seita em torno dele; mas meio século talvez tivesse passado sem que ela atingisse os limites de seu país de origem, ao passo que, depois de dez anos, já fincou estacas de um a outro polo.

47 – Essa circunstância, inaudita na história das doutrinas, dá a esta uma força excepcional e um poder de ação irresistível; com efeito, se for comprimida num ponto, num país, é materialmente impossível comprimi-la em todos os pontos, em todos os países. Para cada lugar em que for entravada, haverá mil, ao redor, em que florescerá. Mais ainda, se a atingimos  em um indivíduo, não podemos atingi-la nos Espíritos, que são sua fonte. Ora, como os Espíritos estão em toda parte, e existirão sempre, se, ainda que seja impossível, conseguíssemos sufocá-la em todo o globo, ela reapareceria algum tempo depois, porque repousa num fato, este fato é da natureza, e não podemos suprimir as leis da natureza. É disso que devem se persuadir aqueles que sonham com a extinção do Espiritismo.

48 – Entretanto, esses centros disseminados deveriam ficar ainda muito tempo isolados uns dos outros, confinados que estão, alguns, em países distantes. Faltava entre eles um traço de união que os colocasse em comunhão de pensamento com seus irmãos de crença, ensinando-lhes o que se fazia algures. Este traço de união, que teria faltado ao espiritismo na antiguidade, encontra-se nas publicações que correm por toda parte, que condensam, numa forma única, concisa e metódica, o ensinamento dado, em toda a parte, em formas múltiplas e em línguas diversas.

49 – As duas primeiras revelações só podiam ser o resultado de um ensinamento direto; deviam impor-se à fé pela autoridade da palavra do Mestre, pois os homens não estavam bastante avançados para participar de sua elaboração.

Notemos, no entanto, entre elas um matiz bem sensível que está ligado ao progresso dos costumes e das ideias, se bem que elas tenham surgido no mesmo povo e no mesmo meio, mas com quase dezoito séculos de intervalo. A doutrina de Moisés é absoluta, despótica; não admite discussão e impõe-se a todo o povo pela força. A de Jesus é essencialmente conselheira; é livremente aceita e só se impõe pela persuasão; foi contestada enquanto seu próprio fundador vivia, ele que não rejeita discutir com seus adversários.

50 – A terceira revelação, vinda em uma época de emancipação, e de maturidade intelectual, em que a inteligência desenvolvida não se pode limitar a um papel passivo, em que o homem não aceita nada às cegas, mas quer ver para onde o conduzem, saber o porquê e o como de cada coisa, devia ser simultaneamente o produto de um ensinamento e o fruto do trabalho, da pesquisa e do livre exame. Os Espíritos só ensinam o que é preciso para encaminhar para a verdade, mas se abstêm de revelar o que o homem pode encontrar por si mesmo, deixando-lhe o cuidado de discutir, de controlar e de submeter o todo ao filtro da razão, deixando-o até, por vezes, adquirir experiência por esforço próprio. Eles lhes dão o princípio, os materiais: cabe a ele tirar proveito deles e aplicá-los.

51 – Os elementos da revelação espírita tendo surgido simultaneamente, numa diversidade de lugares, com homens de todas as condições sociais e de diversos graus de instrução, é evidente que as observações não podiam ser feitas em toda parte com o mesmo proveito; que as consequências a tirar delas, a dedução das leis que regem essa ordem de fenômenos, em resumo a conclusão sobre  a qual deviam assentar as ideias, não podiam sair senão do conjunto e da correlação dos fatos. Ora, cada centro isolado, circunscrito a um círculo limitado, só vendo com frequência, uma ordem particular de fatos às vezes aparentemente contraditórios, geralmente só dizendo respeito a uma mesma categoria de Espíritos e, além do mais, entravado pelas influências locais e pelo espírito de divisão,acha-se na impossibilidade material de abraçar o conjunto e, por isso mesmo, impotente para unir as observações isoladas em um princípio comum. Como cada um apreciasse os fatos do ponto de vista de seus conhecimentos e de suas crenças anteriores, ou da opinião particular dos Espíritos que se manifestam, haveria logo tantas teorias e sistemas quanto centros, nenhum dos quais podendo ser completo, por falta de elementos de comparação e de controle. Em resumo, cada um imobilizar-se-ia em sua revelação parcial, acreditando dominar toda a verdade, por não saber que, em mil outros lugares, obtinha-se mais ou melhor.

52 – Além disso, deve-se observar que em nenhum lugar o ensinamento espírita foi dado de maneira completa; ele engloba um número tão grande de observações, assuntos tão diversos, que exigem ou conhecimentos ou aptidões mediúnicas especiais, que seria impossível reunir num mesmo ponto todas as condições necessárias. Como o ensinamento deve ser coletivo e não individual, os Espíritos dividiram o trabalho disseminando os objetos de estudo e de observação, como em certas fábricas, a confecção de cada parte de um mesmo objeto é repartida entre diferentes operários.

A revelação foi assim feita parcialmente, em diversos lugares e através de um grande número de intermediários, e é dessa maneira que ela prossegue ainda neste momento, pois nem tudo está revelado. Cada centro encontra, nos outros centros, o complemento do que obtém, e é o conjunto, a coordenação de todos os ensinamentos parciais que constitui a doutrina espírita.

Era, pois, necessário agrupar os fatos esparsos para ver sua correlação, reunir os documentos diversos, as instruções dadas pelos Espíritos sobre todos os pontos e sobre todos os assuntos, para compará-las, analisá-las, estudar suas analogias e diferenças. Como as comunicações são feitas por Espíritos, de todas as categorias, menos ou mais esclarecidos, impunha-se apreciar o grau de confiança que a razão permitia atribuir a eles, distinguir as ideias sistemáticas  individuais e isoladas das que tinham a sanção do ensinamento geral dos Espíritos, as utopias das ideias práticas; suprimir as que eram notoriamente desmentidas pelos dados da ciência positiva e da lógica sadia, utilizar igualmente os erros, os ensinamentos fornecidos pelos Espíritos, mesmo do mais baixo estágio, para o conhecimento do estado do mundo invisível, e para formar dele um todo homogêneo. Impunha-se, em resumo, um centro de elaboração, independente de qualquer ideia preconcebida, de qualquer preconceito de seita, determinado a aceitar a verdade tornada evidente, ainda que ela fosse contrária a suas opiniões pessoais. Esse centro formou-se por si só, pela força das coisas, e sem premeditação.

53 – Desse estado de coisas, resultou uma dupla corrente de ideias: umas indo das extremidades para o centro, as outras voltando do centro para a circunferência. Assim foi que a doutrina caminhou prontamente em direção à unidade, apesar da diversidade das fontes das quais emanou; que os sistemas divergentes pouco a pouco sucumbiram, devido a seu isolamento, diante da autoridade da opinião da maioria, por não encontrar repercussão simpática. Uma comunhão de pensamentos estabeleceu-se a partir de então entre os diferentes centros parciais; falando a mesma língua espiritual, eles se compreendem e simpatizam-se de uma extremidade à outra do mundo.

Os Espíritos ficaram mais fortes, lutaram com mais coragem, caminharam com um passo mais seguro, desde que não se viram mais isolados, quando sentiram um ponto de apoio, um laço que os unia à grande família; os fenômenos de que eram testemunhas não lhes pareceram mais estranhos, anormais, contraditórios, quando puderam relacioná-los com leis gerais de harmonia, alcançar de relance o edifício e ver, em todo esse conjunto, um objetivo grande e humanitário.

Mas como saber se um princípio é ensinado em toda parte, ou se não passa do resultado de uma opinião individual? Não sabendo os grupos isolados o que se diz alhures, era necessário que um centro reunisse todas as instruções, para fazer uma espécie de inventário das vozes e levar ao conhecimento de todos a opinião da maioria.

54 – Não há nenhuma ciência que tenha saído inteiramente do cérebro de um homem; todas, sem exceção, são o produto de observações sucessivas que se apoiam nas observações precedentes, assim como num ponto conhecido para chegar ao desconhecido. Foi assim que os Espíritos procederam quanto ao Espiritismo; é por isso que o ensinamento deles é graduado; só abordam as questões à medida em que os princípios sobre os quais elas devem apoiar-se estão suficientemente elaborados, e que a opinião está madura para assimilá-los. É também digno de ser notado que todas as vezes que os centros particulares quiseram abordar questões prematuras, só obtiveram respostas contraditórias não concludentes. Quando, ao contrário, chega o momento favorável, o ensinamento generaliza-se e unifica-se na quase universalidade dos centros.

Há, no entanto, entre a marcha do Espiritismo e a das ciências uma diferença capital: é que estas só atingiram o ponto a que chegaram depois de longos intervalos, enquanto ao Espiritismo bastou alguns anos, senão para atingir o ponto culminante, pelo menos para recolher uma soma de observações bastante grande para constituir uma doutrina. Esse fato provém do grande número de Espíritos que, pela vontade de Deus, manifestaram-se simultaneamente, trazendo, cada um, o contingente de seus conhecimentos. Resultou que todas as partes, da doutrina ao invés de serem elaboradas sucessivamente durante vários séculos, foram-no quase simultaneamente em alguns anos, e bastou agrupá-las para constituir um todo.

Deus quis que fosse assim, primeiro para que o edifício chegasse mais rápido ao topo; em segundo lugar, para que se pudesse, por comparação, ter um controle por assim dizer imediato e permanente na universalidade do ensinamento, cada parte só tendo valor e autoridade por sua conexão com o conjunto, todas devendo harmonizar-se, encontrar seu lugar no registro geral, e chegar cada uma a seu tempo.

Deixando de confiar a um único Espírito a tarefa da promulgação da doutrina, Deus quis, além do mais, que o menor tanto quanto o maior, entre os Espíritos e entre os homens, trouxesse sua pedra ao edifício, a fim de estabelecer entre eles um laço de solidariedade cooperativa que faltou a todas as doutrinas originárias de uma fonte única.

Por outro lado, cada Espírito, assim como cada homem, só tendo uma soma limitada de conhecimentos, individualmente não eram hábeis para tratar ex professo das inúmeras questões abrangidas pelo Espiritismo; é por isso também que a doutrina, para satisfazer o objetivo do Criador, não podia ser obra nem de um único Espírito nem de um único médium; ela só podia nascer da coletividade dos trabalhos controlados uns pelos outros.

55 – Um último caráter da revelação espírita, que resulta das próprias condições nas quais é feita, ela é e só pode ser essencialmente progressiva, como todas as ciências de observação. Pela sua essência, ela contrai aliança com a ciência que, sendo a exposição das leis da natureza numa certa ordem de fatos, não pode ser contrária à vontade de Deus, o autor dessas leis. As descobertas da ciência glorificam Deus ao invés de diminuí-lo; elas só destroem aquilo que os homens construíram sobre as ideias  falsas que conceberam de Deus.

O Espiritismo não coloca, pois, como princípio absoluto senão aquilo que é demonstrado com evidência, ou o que resulta logicamente da observação. Relacionando-se com todos os ramos da economia social, aos quais presta o apoio de suas próprias descobertas, assimilará sempre todas as doutrinas progressivas, de qualquer categoria que sejam, tanto as que atingem o estado de verdades práticas, quanto as que saem do domínio da utopia, sem o que ele se liquidaria; deixando de ser o que é, ele trairia sua origem e seu objetivo essencial. O espiritismo, caminhando com o progresso, nunca ficará ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrassem que está errado em algum ponto, ele se modificaria nesse ponto; se uma nova verdade se revela, ele a aceita.

56 – Qual é a utilidade da doutrina moral dos Espíritos, se ela é a mesma do Cristo? O homem precisa de uma revelação, e não pode encontrar em si mesmo tudo que lhe é necessário para governar-se?

Do ponto de vista moral, Deus sem dúvida deu ao homem um guia em sua consciência que lhe diz: “Não faça a outrem o que não gostaria que lhes fizessem”. A moral natural com certeza está inscrita no coração dos homens, mas todos sabem ler nele?  Eles nunca foram ingratos para com seus sábios preceitos? O que fizeram da moral do Cristo? Como a praticam aqueles que a ensinam? Ela não se tornou uma letra morta, uma bela teoria, boa somente para os outros? Você censuraria um pai que repetisse dez vezes, cem vezes as mesmas instruções a seus filhos se eles não tirassem proveito delas? Por que Deus faria menos que um pai de família? Por que não mandaria, de quando em quando, entre os homens, mensageiros especiais encarregados de chamá-los à razão, e de colocá-los de novo no bom caminho quando dele se afastaram, de abrir os olhos da inteligência daqueles que os fecharam, como os homens mais avançados enviam missionários até os selvagens e os bárbaros?

Os Espíritos ensinam a mesma moral do Cristo, pelo fato de que não há outra melhor. Mas então de que serve seu ensinamento, se dizem tão-somente aquilo que sabemos? Poderíamos dizer o mesmo da moral do Cristo, que foi ensinada bem antes  dele por Sócrates e Platão, e em termos quase idênticos; de todos os moralistas que repetem a mesma coisa em todos os tons e de todas as formas. Pois bem! Os Espíritos vêm simplesmente aumentar o número dos moralistas, com a diferença de que, manifestando-se em toda parte, se fazem ouvir tanto no casebre quanto no palácio, pela gente ignorante ou instruída.

O que o ensinamento dos Espíritos acrescenta à moral do Cristo é o conhecimento dos princípios que ligam os mortos e os vivos, que completam as noções vagas que ele deu da alma, de seu passado e de seu futuro, e que dão por sanção à sua doutrina as próprias leis da natureza. Com a ajuda das novas luzes trazidas pelo Espiritismo e pelos Espíritos, o homem compreende a solidariedade que une todos os seres; a caridade e a fraternidade tornam-se uma necessidade social; ele faz por convicção o que só fazia por dever, e o faz melhor.

Quando os homens praticarem a moral do Cristo, só então poderão dizer que não precisam mais de moralistas encarnados ou desencarnados; mas então também Deus não lhes mandará mais nenhum.

57 – Uma das questões mais importantes que foram colocadas no início deste capítulo é esta: Qual é a autoridade da revelação espírita, visto que ela emana de seres cujas luzes são limitadas, e que não são infalíveis?

A objeção seria ponderável se essa revelação consistisse apenas no ensinamento dos Espíritos, se devêssemos recebê-la exclusivamente deles e aceitá-la de olhos fechados; ela perde o valor no instante em que o homem colabora com a sua inteligência e seu julgamento, que os Espíritos  se limitam a encaminhá-lo para as deduções que ele pode tirar da observação dos fatos. Ora, as manifestações e suas inúmeras variedades são fatos; o homem os estuda e investiga sua lei; é ajudado nesse trabalho pelos espíritos de todas as categorias, que são mais colaboradores que reveladores, no sentido usual da palavra; ele submete o que dizem ao controle da lógica e do bom senso. Dessa maneira, ele se beneficia dos  conhecimentos especiais que eles devem à sua posição, sem abdicar do uso de sua própria razão.

Sendo os Espíritos não mais que as almas dos homens, comunicando-nos com eles não saímos fora da humanidade, circunstância capital a considerar. Os gênios que foram as luzes da humanidade saíram, pois, do mundo dos Espíritos, da mesma forma que para lá voltaram, ao deixar a terra. Como os espíritos podem comunicar-se com os homens, esses mesmos gênios podem lhes dar instruções sob a forma espiritual, como o fizeram sob a corporal; podem instruir-nos depois de sua morte, como o faziam vivos; estão invisíveis ao invés de estarem visíveis, eis toda a diferença. Sua experiência e saber não devem ser menores, e se sua palavra, como homens, tinha autoridade, não passa a ter menos porque estão no mundo dos Espíritos.

58 – Mas não são apenas os Espíritos superiores que se manifestam, são também os Espíritos de todas as categorias, e isso é necessário para nos iniciar no verdadeiro caráter do mundo espiritual, mostrando-o a nós sob todas as suas faces; assim, as relações entre o mundo visível e o mundo invisível ficam mais íntimas, a conexão é mais evidente, vemos mais claramente de onde viemos e para onde vamos; é este o objetivo essencial dessas manifestações. Todos os Espíritos, qualquer que seja o grau a que tenham chegado, ensinam-nos, pois, alguma coisa, mas como são menos ou mais esclarecidos, cabe a nós discernir o que há neles de bom ou de mau, e tirar o proveito que seu ensinamento comporta; ora, todos, quaisquer que sejam, podem nos ensinar ou revelar coisas que ignoramos e que sem eles não saberíamos.

59 – Os grandes Espíritos encarnados são individualidades poderosas, sem qualquer dúvida, mas cuja ação é restrita e necessariamente lenta para propagar-se. Que um só deles, fosse até mesmo Elias ou Moisés, Sócrates ou Platão, tivesse vindo nesses últimos tempos revelar aos homens o estado do mundo espiritual, quem provaria a veracidade de suas asserções, neste tempo de ceticismo? Não o olharíamos como um sonhador ou um utopista? E, admitindo que ele fosse no verdadeiro absoluto, decorreriam séculos antes que suas ideias fossem aceitas pelas massas. Deus, em sua sabedoria, não quis que fosse assim; ele quis que o ensinamento fosse dado pelos próprios Espíritos, e não pelos encarnados, a fim de convencer da existência deles, e que ocorresse simultaneamente em toda a terra, seja para propagá-lo mais rapidamente, seja para que encontrássemos na coincidência do ensinamento uma prova da verdade, cada um tendo assim os meios de convencer-se por si mesmo.

60 – Os Espíritos não vêm isentar o homem do trabalho de estudo e pesquisa; eles não lhe trazem nenhuma ciência pronta; quanto ao que pode encontrar por si mesmo, eles o deixam com suas próprias forças; é o que sabem perfeitamente hoje os espíritas. Há muito tempo a experiência demonstrou o erro da opinião que atribuía aos Espíritos todo o saber e toda a sabedoria, e que alegava bastar dirigir-se ao primeiro Espírito vindo para conhecer todas as coisas. Originários  da humanidade, os Espíritos constituem uma de suas faces. Como na terra, há os superiores e os vulgares; muitos sabem, pois científica e filosoficamente menos que certos homens; eles dizem o que sabem, nem mais nem menos. Como entre os homens, os mais avançados podem nos informar sobre mais coisas, dar-nos opiniões  mais judiciosas que os atrasados. Pedir conselhos aos Espíritos não é voltar-se para poderes sobrenaturais, mas para nossos semelhantes, estes mesmos a quem nos dirigíamos enquanto vivessem: a nossos parentes, amigos, ou indivíduos mais esclarecidos que nós. É isso que cumpre saber e que é ignorado por aqueles que, não tendo estudado o Espiritismo, fazem uma ideia   completamente  falsa  sobre a natureza do mundo dos Espíritos e as relações de além-túmulo.

61 – Qual, pois, a utilidade dessas manifestações ou, se preferirmos, dessa revelação, se os Espíritos não sabem mais a respeito dela que nós, ou se não nos dizem tudo o que sabem?

Primeiro, como dissemos, eles se abstêm de nos dar o que podemos adquirir pelo trabalho; em segundo lugar, há coisas que não lhes é permitido revelar, porque nosso estágio de progresso não o permite. Mas, à parte isso, as condições de sua nova existência estendem o círculo de suas percepções; ele veem o que não viam na terra; tendo atravessado os entraves da matéria, libertos das preocupações da vida corporal, julgam as coisas de um ponto mais elevado, e por isso mesmo de modo mais sadio; sua perspicácia abraça um horizonte mais vasto; eles compreendem seus erros, retificam suas ideias e desembaraçam-se dos preconceitos humanos.

É nisso que consiste a superioridade dos Espíritos sobre a humanidade corporal, e no que seus conselhos podem ser, de acordo com seu grau de desenvolvimento, mais judiciosos e mais desinteressados que o dos encarnados. O meio no qual se encontram permite-lhes, ainda, iniciar-nos nas coisas da vida futura que ignoramos, e que não podemos aprender onde estamos. Até agora o homem só tinha criado hipóteses sobre seu futuro; é por isso que suas crenças a esse respeito foram divididas em sistemas tão numerosos e divergentes, desde sua negação até às fantásticas concepções do inferno e do paraíso. Hoje são as testemunhas oculares, os próprios atores da vida além-túmulo, que vêm dizer dela, eles que são os únicos que podiam fazê-lo. Essas manifestações serviram, pois, para nos revelar o mundo invisível que nos rodeia, e do qual não suspeitávamos; e só esse conhecimento teria uma importância capital, supondo-se que os Espíritos fossem incapazes de nos revelar qualquer coisa mais.

Se você fosse a um país desconhecido, rejeitaria as informações do mais humilde camponês que encontrasse? Recusaria interrogá-lo sobre o estado da estrada, porque se trata de um camponês? Com certeza você não esperará dele esclarecimentos de grande alcance mas, tal como é, e na sua esfera, ele poderá, em certos pontos, informá-lo melhor que um sábio que não conhecesse o país. Você tirará das indicações dele conclusões que ele próprio não poderia tirar, mas ele não deixará de ter sido um instrumento útil para suas observações, ainda que só tivesse servido para fazê-lo conhecer os costumes dos camponeses. Acontece o mesmo nas relações com os Espíritos, em que o menor deles pode servir para nos ensinar alguma coisa.

62 – Uma comparação vulgar fará com que se possa entender melhor a situação.

Um navio carregado de emigrantes parte para um destino longínquo; leva homens de todas as condições, parentes e amigos dos que ficam. Ficamos sabendo que esse navio naufragou; não restou nenhum sinal dele, não chegou nenhuma notícia de seu destino; pensamos que todos os viajantes morreram, e todas as famílias cobrem-se de luto. Entretanto, a tripulação toda, sem exceção de um só homem, abordou em uma terra desconhecida, abundante e fértil, onde todos vivem felizes sob um céu clemente; mas não o sabemos. Ora, eis que um dia um outro navio aporta nessa terra; encontra todos os náufragos sãos e salvos. A feliz notícia espalha-se com a rapidez do raio; todos dizem: “Nossos amigos não se perderam!” e rendem graças a Deus. Eles não podem ver-se, mas se correspondem, trocam testemunhos de afeto, e eis que a alegria sucede à tristeza.

Essa é a imagem da vida terrestre e da vida de além-túmulo, antes e depois da revelação moderna; esta, como o segundo navio, traz-nos a boa notícia da sobrevivência daqueles que nos são caros, e a certeza de estar com eles de novo um dia; a dúvida sobre o destino deles e o nosso não existe mais; o desencorajamento apaga-se diante da esperança.

Mas outros resultados vêm fecundar essa revelação. Deus, julgando a humanidade amadurecida para penetrar o mistério de seu destino e contemplar a sangue-frio novas maravilhas, permitiu que o véu que separava o mundo visível do mundo invisível fosse erguido. A ocorrência das manifestações não tem nada de extra-humano, é a humanidade espiritual que vem dialogar com a humanidade corporal e dizer-lhe:

“Nós existimos, pois o nada não existe; eis o que somos, e eis o que vocês serão; o futuro é de vocês, assim como é nosso. Vocês caminhavam nas trevas, viemos iluminar sua estrada e lhes abrir o caminho; vocês iam ao acaso, nós lhes mostramos o objetivo. A vida terrestre era tudo para vocês, porque não viam nada além disso; viemos dizer-lhe, mostrando a vida espiritual: a vida terrestre não é nada. Sua visão interrompia-se no túmulo, nós lhe mostramos para além dele um horizonte esplêndido. Vocês não sabiam porque sofrem na terra; agora, no sofrimento, veem a justiça de Deus; o bem não tinha frutos aparentes para o futuro, de agora em diante terá um objetivo e será uma necessidade; a fraternidade era apenas uma bela teoria, agora está assentada numa lei da natureza. Sob o império da crença de que tudo acaba com a vida, a imensidade é vazia, o egoísmo reina entre vocês como mestre, e sua palavra de ordem é: “Cada um para si”; com a certeza do futuro, os espaços infinitos se povoam ao infinito, o vazio e a solidão não existem em nenhum lugar, a solidariedade liga todos os seres além e aquém do túmulo; é o reino da caridade com a divisa: “Cada um por todos e todos por um”. Enfim, no termo da vida vocês diziam um eterno adeus àqueles que lhes são caros, agora lhes dirão: “Até breve!”.

Esses são, em resumo, os resultados da revelação nova; ela veio preencher o vazio cavado pela incredulidade, reerguer os ânimos abatidos pela dúvida ou pela perspectiva do nada, e dar a todas as coisas sua razão de ser. Esse resultado é, pois, sem importância, porque os Espíritos não vêm resolver os problemas da ciência, dar saber aos ignorantes, e aos preguiçosos os meios de enriquecer facilmente? Entretanto, os frutos que o homem deve colher não são apenas para a vida futura; ele se beneficiará deles na terra, pela transformação que essas novas crenças devem necessariamente operar em seu caráter, seus gostos, suas tendências e, consequentemente, nos hábitos e nas relações sociais. Pondo fim ao reino do egoísmo, do orgulho e da incredulidade, elas preparam o do bem, que é o reino de Deus anunciado pelo Cristo.

FIM

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O escritor Carlos Torres  Pastorino, quando encarnado, muito escreveu (Sabedoria do Evangelho, Minutos de Sabedoria, etc). Vivendo agora no Mundo espiritual contínua com sua obra de amor. Ariston S. Teles, psicografou o livro “Minutos de Luz” – da LIVREE, do qual extraímos essa bela mensagem:

ALEGRIA

 

“Cultive a alegria.

A tristeza é marca de pessimismo e insatisfação.

A alegria é prova de elevação e serenidade.

Quem se dispõe a sorrir com moderação e pureza de sentimentos passa a transmitir paz e esperança onde estiver.

O azedume outra coisa não apresenta senão falta de fé nos desígnios da Suprema  Sabedoria.

Lembre-se: Deus é a fonte das alegrias eternas e você é filho de Deus.

Por isso, não deixe de alimentar a chama da alegria no seu coração.”

As mensagens de Pastorino, embora curtas, são de grande elevação.

 

Sônia Aparecida Ferranti Tola

Boletim do mês de maio/2016

http://www.4shared.com/office/ekg9Bhgwce/Caminheiros_da_Luz_-maio_-2016.html

 

ABENÇOA E PASSA

“Não basta recear a violência.

É preciso algo fazer para erradicá-la.

 

Indubitavelmente, as medidas de repressão, mantidas pelos dispositivos legais do mundo, são recursos que a limitam, entretanto, nós todos – os espíritos encarnados e desencarnados – com vínculos na Terra, podemos colaborar na solução do problema.

 

Compadeçamo-nos dos irmãos envolvidos nas sombras da delinquência , a fim de que nos inclinem os sentimentos para a indulgência e para a compreensão.

 

Tanto quanto puderes, não participes de boatos ou de julgamentos precipitados, em torno de situações e pessoas.

 

Silencia ante quaisquer palavras agressivas que te forem dirigidas, onde estejas, e segue adiante, buscando o endereço das próprias obrigações.

 

Não eleves o tom de voz, entremostrando superioridade, à frente dos outros.

 

Não te entregues à manifestações de azedume e revolta, mesmo quando sintas, por dentro da própria alma, o gosto amargo dessa ou daquela desilusão.

 

Respeita a carência alheia e não provoques os irmãos ignorantes ou infelizes com a exibição das disponibilidades que os Desígnios Divinos te confiaram para determinadas aplicações louváveis e justas.

 

Ao invés de criticar, procura o lado melhor das criaturas e das ocorrências, de modo a construíres o bem, onde estiveres.

 

Auxilia para  a elevação, abençoando sempre.

 

Lembra-te: o morrão aceso é capaz de gerar incêndios calamitosos e, às vezes, num gesto infeliz de nossa parte, pode suscitar nos outros as piores reações de vandalismo e destruição.”

 

Não é nada fácil para nós seguirmos os conselhos de seres muito mais evoluídos do que nós, mas temos que reconhecer que suas palavras são verdadeiras.

Muita gente vê a violência, mas tem medo de falar e ser perseguido ou mesmo morto.

Vamos procurar orar pelos irmãos necessitados e fazer o bem, sempre que necessário.

 

Maria Madalena Naufal

 

FONTE

 

                ATENÇÃO – Emmanuel – psicografia de Francisco Cândido Xavier – Instituto de Difusão Espírita.

SAUDAÇÃO

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A Equipe “CAMINHEIROS DA LUZ”

Edson Luís da Silva,
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Sônia Aparecida Ferranti Tola
(Maria Madalena Naufal - in memorian)
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